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Fazem sentido as práticas de agricultura regenerativa nas culturas permanentes?

26 Março, 2026Nuno Ramos MADDE

Recentemente participei na conferência sobre frutos secos, promovido, em Almeirim, pela Vida Rural, inserido numa mesa-redonda acerca deste assunto. Essa conversa estará brevemente disponível, e recomendo que seja ouvida, no canal de Youtube da Vida Rural, até porque sou o menos entendido em agricultura regenerativa do painel. Ainda assim, esta participação motivou em mim uma reflexão sobre aquilo que me parece a abordagem estratégica mais adequada para introduzir a agricultura regenerativa nas áreas de culturas permanentes e que gostava de partilhar.

Primeiro, uma nota: as culturas permanentes têm aqui algumas condições de rigidez que não permitem que as acções no solo e na introdução de animais sejam usadas com a mesma flexibilidade que é possível nas culturas anuais e nas pastagens. Nessas outras áreas, onde a introdução de práticas regenerativas foi pioneira, parece mais fácil fazer este tipo de abordagem e os resultados prometem ser mais rápidos. No entanto, nas permanentes, a cultura “está sempre” na parcela.

Importa esclarecer que a definição de agricultura regenerativa é algo difusa e não consensual, pelo que me fico por uma abordagem técnica e que consigo compreender, a melhor abordagem que ouvi: “tentar tornar a parcela mais resiliente e mais viável, técnica e economicamente, para produzir aquela cultura, e por meios próprios”.

Ora, penso que o agricultor que queira fazer isto na sua exploração deve fazê-lo através do encadeamento lógico de três perguntas:

  1. Para quê? Quais os objectivos técnicos a alcançar?
  2. Usando quais práticas? Ou seja, como?
  3. Procurando quais objectivos finais, nomeadamente económicos?

1) Para quê?

Os principais objectivos, a meu ver, prendem-se com o solo e com a biodiversidade.

Cada um destes sub-temas (e outros ainda haverá) merece um aprofundamento que deve ser considerado seriamente pelos técnicos e gestores agrícolas. Afinal, atingir estes objectivos é o precursor dos melhores resultados empresariais, que são o foco da gestão agrícola. Mas lá chegaremos.

Como exemplo, podemos considerar um deles e aprofundar. O aumento da capacidade de retenção da água no solo permite criar uma maior resistência a potenciais momentos de stress hídrico no futuro, como estimam os modelos de alterações climáticas. Num estudo de 2025 feito para a Portugal NUTS e a OLIVUM,a AGROGES estimou, no cenário 4.1 do IPCC, um aumento de 4% das necessidades hídricas da amendoeira até 2050 e de 8% até 2080. Importa notar que  este estudo produziu cálculos para a zona de influência de Alqueva e que não serão necessariamente extrapoláveis para outas localizações. No entanto, estes resultados representam sinais fortes do aumento das necessidades futuras da cultura.

Nesta cultura, e claro que há diferenças entre culturas, especialmente relativamente às espécies que respondem bem à rega deficitária, o mesmo estudo determinou, através de uma revisão bibliográfica, que uma redução de 40% da dotação face às necessidades origina quebras de produção de perto de 33%. Ora este exemplo ilustra perfeitamente o impacto e a ameaça que a escassez de água representa para esta cultura, como acontece também para muitas outras e o benefício enorme que há em ter um solo com maior capacidade de retenção de água. Claro que para um solo reter água é preciso haver um aporte de água, da chuva ou da rega, mas com menor input haver a maior disponibilidade possível para as plantas é uma enorme mais-valia.

O que proponho é que este exercício seja feito para cada um dos objectivos técnicos que se apliquem a um caso particular.

2) Que práticas?

Existe um enorme número de práticas ditas regenerativas, nomeadamente em relação ao solo e à biodiversidade. Desde logo o enrelvamento, a incorporação de lenha de poda, a gestão e combate à erosão, etc., no caso do solo. Para a biodiversidade, a instalação de espécies melíferas no enrelvamento e nas bordaduras, a remoção dos fitofármacos com maior impacto, especialmente insecticidas, a utilização de armadilhas e a instalação de bebedouros e comedouros para a fauna.

Porém, mais importante do que saber uma lista de actividades, até porque o que apresentei não é exaustivo e não pretendo fazer recomendações, é saber como, porquê e quando aplicar cada prática de forma mais adequada à parcela.

Conheço casos em que produtores instalaram espécies melíferas escolhidas com floração simultânea à da sua cultura, e outras em que são escolhidas plantas com períodos de floração que se estendem no tempo de forma complementar ao da cultura. Ambas tinham excelentes argumentos para a sua escolha e há vários factores que podem ser determinantes, como por exemplo: se os pomares têm polinizadores instalados em colmeias ou caixas pelo agricultor, ou se o objectivo é maximizar a polinização pelos insectos que ocorrem na exploração.

Na realidade é preciso saber o problema que se quer resolver, o efeito da prática escolhida e os ajustes necessários para direccionar essa prática para os efeitos desejados nas condições específicas da parcela.

3) Que resultados são pretendidos?

Normalmente a resposta a esta pergunta é económica: o resultado pretendido é um aumento da rentabilidade obtida.

Faz sentido: se aplicarmos as técnicas regenerativas mais impactantes na parcela e conseguirmos com isso reduzir as necessidades de rega e de fertilização e/ou maximizar a polinização, ganharemos mais dinheiro por unidade de área, através de uma redução de custos e/ou um ganho de produtividade.

Assim, parece que o objectivo último é realmente tornar a parcela mais resiliente e viável por meios próprios.

Esta perspectiva ganha especial interesse num contexto de custos crescentes, como o que vivemos neste momento e como os que foram observados por diversas vezes nos últimos anos.

Será a regenerativa uma defesa contra tendências inflacionárias na economia?

Para além da redução ou controlo de custos, há duas outras formas que me ocorrem de procurar melhorar os resultados económicos:

  • o aumento da receita através de uma remuneração específica do mercado para produtos de agricultura regenerativa;
  • e o interesse (pago) pelos benefícios ambientais e sociais gerados por esta forma de produzir – quer seja por esquemas de pagamento de serviços dos ecossistemas ou por investimentos mandatados para incorporar práticas regenerativas na sua forma de produção.

Claro que, aqui, as motivações são cruzadas e os objectivos podem ser simultaneamente ambientais, sociais e económicos. Mas é perfeitamente legítimo que sejam mais de uma destas vertentes que das outras, ou até simplesmente só de uma.

Quem veja a discussão, através do link que mencionei acima, aperceber-se-á que não há soluções pró-forma e pré-definidas. É necessário entender o sistema vivo que se encontra em cada parcela em que se actua, projectar os efeitos sobre solo e biodiversidade, mas também água e sentido técnico-económico das operações, e assim tentar tomar as acções com maior sinergia positiva e o impacto mais favorável.  

Penso que com esta estrutura e abordagem é possível resolver alguns dos problemas das nossas parcelas, de forma consistente, e atingir uma maior sustentabilidade na exploração.

Desta forma seremos mais resilientes a choques externos e caminharemos para o que o consumidor europeu parece querer: produtos alimentares mais seguros e com características socio-ambientais mais favoráveis.

Mais, esta abordagem regenerativa permite também enfrentar, pela redução de custos de produção, aquele que me parece ser o principal entrave a um maior consumo destes alimentos com atributos mais sustentáveis que os estudos de mercado dizem que o consumidor quer: o preço.

Assim, penso que podemos concluir que sim, que a agricultura regenerativa nas culturas permanentes faz sentido do ponto de vista económico e socio-ambiental e é algo que o sector deve aprofundar, utilizando uma abordagem estratégica e metodológica baseada nos princípios que aqui se apresentaram.

Ler o artigo completo em formato PDF


Miguel Vieira Lopes

 

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